terça-feira, 12 de abril de 2016

CALAR EM PAZ - O VALOR DAS PALAVRAS - JORGE WAXEMBERG

CALAR EM PAZ

(O livro pode ser baixado na íntegra acessando: www.cafh.org - idioma português - publicações).

Uma característica bastante comum no temperamento das pessoas e que em muitos casos deteriora as relações é a facilidade com que podem se sentir ressentidas ou ofendidas por causas intranscendentes; em outras palavras, por sua excessiva suscetibilidade.
Todos somos suscetíveis e reagimos quando somos estimulados ou atacados. No entanto, nem todos somos igualmente suscetíveis. Alguns de nós reagimos de forma desmedida e nos mantemos na defensiva apesar de essa atitude nos impedir de ver aspectos nossos sobre os quais podemos ou necessitamos trabalhar.
Sabe-se bem que os que desejam melhorar seu desempenho costumam contratar especialistas para que lhes mostrem o que teriam que corrigir ou mudar no que fazem, porém esquecemos este saber com muita facilidade. Quando nos assinalam uma falta ou uma atitude torpe em nossa conduta, geralmente costumamos responder com justificações ou, talvez, nos irritamos e criticamos a quem talvez deseje nos ajudar com seu comentário ou apontamos os erros de outros como se as falhas alheias pudessem justificar as nossas.
Além disso, quem é muito suscetível não necessita de estímulos concretos para reagir; basta que os imagine.
Por exemplo, quando em uma conversa alguém diz que viu uma pessoa caminhar sem cuidado e arrastando os pés, um dos presentes, muito suscetível, imagina que a pessoa disse isto devido à sua forma de caminhar e começa a dizer o quanto presta atenção quando caminha.
Por outro lado, se somos muito suscetíveis, necessitamos receber o reconhecimento dos demais e damos muita importância ao que dizem ou ao que possam opinar sobre nós.
Por exemplo, em uma reunião alguém comenta, de passagem, que chegou tarde ao trabalho por causa da chuva. Um dos assistentes, muito suscetível, rapidamente diz que nunca chegou tarde a nenhum compromisso, mesmo em caso de mau tempo. Pensa que, com o que disse, irá melhorar sua imagem perante os demais.
Quem é muito suscetível atribui, às vezes, segundas intenções e interpreta comentários sem importância como críticas veladas. Como lhe custa reconhecer sua grande suscetibilidade, ofende-se com facilidade e suas respostas costumam ser agressivas. Tende a ser ácido em seus comentários e crítico em suas apreciações. Sem se dar conta, ao reagir, copia o que o ofende ou se lastima. 
Isto faz com que, se em uma reunião um dos presentes é muito suscetível, com frequência, as conversas não terminem bem ou gerem no ambiente uma tensão que induz os demais a se manterem na defensiva em relação ao que essa pessoa possa dizer.
Devido a uma excessiva susceptibilidade, podemos transformar conversas corriqueiras em críticas pessoais e agressivas. Por exemplo, a uma pergunta inocente, como “Que horas são? ”, em vez de darmos a hora, talvez perguntemos: “Por que está com pressa? ”, “Você acha que estou perdendo tempo? ”. Ou então, à pergunta: “O que você está fazendo? ”, poderíamos responder de forma provocadora: ”Você acha que estou fazendo algo errado? ” “Você sempre acredita que sabe mais do que os demais”.
Como nos libertar da aguda suscetibilidade que entristece a nossa vida e deteriora as nossas relações? Convém ensaiar algum exercício; por exemplo, o seguinte:
  •   Manter-nos alertas quando conversamos. Quando escutamos um comentário que nos faz reagir, não responder de imediato.
  •   Deter nossos lábios e refletir sobre as respostas que se amontoam em nossa mente: O que nos incomoda? O que defendemos?
  •   Por que reagimos? Para quê?
    As reações suscetíveis nos impedem de perceber que há em nós dois conflitos opostos: um com nós mesmos, porque nossa baixa autoestima nos mantém na autocrítica, e outro com os demais, para que reconheçam o nosso valor.
    Demo-nos conta de que nada do que alguém diga sobre nós muda nem o que somos, nem o que podemos e nem o que valemos. Demo-nos conta também que, quando nos defendemos do que nos parece ser um comentário injusto, não aumentaremos o nosso valor nem a estima dos demais. Pelo contrário, é bem possível que nossas respostas deteriorem a imagem que os outros têm de nós. Então que sentido tem começar uma discussão exaltada que sempre vai nos prejudicar? Será que a satisfação que sentiremos ao fazê-la é tão grande que compensará o baixo conceito que outros terão de nós? Não é, por acaso, melhorar esse conceito o que buscamos?
    Se conseguirmos efetuar alguma vez o exercício de conter nossas defesas automáticas, veremos que se tornará cada vez mais fácil fazê-lo. Ao calar e deixar fluir a conversação, o torvelinho mental e emocional de nossa primeira reação se apaga e pouco a pouco descobrimos a alegria de calar a tempo e manter-nos interiormente em paz.
Calar em paz é, então, o exercício que pode nos ajudar a moderar os excessos de nosso temperamento e, especialmente, a gerar paz onde quer que estejamos e naqueles com quem falamos. 

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